A jaca e a pata (ou, o dia em que o CG mudou oficialmente)

Domingo de outono, temperatura agradável, nem quente nem frio. Churrasco na casa dos amigos, um sagu pronto na geladeira, frutas e refrigerantes gelando. Meio-dia, e para lá fomos.

Estacionamos o carro, pegamos as sobremesas e os refrigerantes, fomos em direção do portão. O Rê carregando praticamente tudo, e eu a travessa com o sagu. E quando eu terminava de atravessar a rua e colocar o primeiro pé na calçada, aconteceu o inesperado: uma jaca imensa foi teletransportada bem na minha frente. Olhei prá cima, não vi a Enterprise. E na calçada, não vi o Kirk. Nem o Spock. Nem o Sulu. Mas não haveria outra explicação lógica senão Scotty ter teletransportado aquela jaca de 70kg. Do nada.

Quando a jaca caiu, ela se esborrachou parte contra o muro de pedra, parte contra o chão. E claro, deixou cair o sagu que ela trazia, e a travessa de vidro… babau! Eu não acreditava que a jaca foi teletransportada com uma travessa de sagu! Impressionante…

Enquanto o Rê ficou tentando juntar os pedaços da jaca, e se certificando de que o trem não tinha caído na minha cabeça, eu tive uma epifania. O teletransporte da jaca estava diretamente direcionado com o não transmorfoseamento da pata. Se a pata tivesse se transmorfoseado, a jaca nunca teria sido mandada por Scotty, pela simples razão de que a Enterprise nunca teria recebido uma mensagem da Federação para voltar ao nosso sistema solar e informar sobre o incidente da pata. Nada mais claro e evidente do que isso!

Ok. Os nerds de plantão – como eu – conseguiram seguir a viajada na maionese. Naquele dia eu caí, caí feio. Tropecei na guia da calçada, quando achei que tinha levantado o pé o suficiente, e não levantei. Foi um tombo digno de comercial de Gelol, mas o tropeção não foi nada de extraordinário. Eu já tropecei um milhão de vezes como naquele dia, sem cair. Mas a culpa é do tal CG, o Centro de Gravidade que tanto lemos nos livros sobre gravidez e não botamos uma fé. Da teoria para a prática, isso é o que nos leva a acreditar que o tal do CG muda, mesmo. E que andar no famoso estilo “dez prás duas” é o fim de toda a grávida.

Bem, nada de grave aconteceu, por incrível que pareça. Bati a cabeça no muro, ralei mão, braço e perna, mas tanto a barriga quanto as costas foram preservadas. Não dá prá explicar como… De recordação, ganhei uma quelóide gigante na mão direita, do formato do mapa da Austrália! Bom sinal, bom sinal…

Ainda vou escrever um livro sobre gravidez, e vai ter um capítulo da jaca e da pata. Ah, vai! 

Filhota, não tem jeito: a mamãe é nerd, das bravas! Vai se acostumando…

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Published in: on dezembro 16, 2008 at 7:32 pm  Comments (12)  

E mais uma trincheira

E eu achando que essa seria a única trincheira da batalha…

Após 6 semanas no Brasil, cheguei na Coréia no dia 09 de outubro. No dia seguinte, uma sexta-feira, fui à consulta de rotina com a Dra. Sung. Quando cheguei no consultório, a enfermeira queria que eu tomasse 50 mg de glucose para o exame de diabetes gestacional. Eu argumentei que faria o exame na semana seguinte, pois estava muito cansada da viagem, e ela me disse que era melhor fazê-lo naquele dia mesmo, pois até que eu fizesse o ultrassom e passasse pela consulta ela teria tempo suficiente para tirar a amostra de sangue. Embalada pelo jetlag, caí na dela…

E tomei aquela gororoba açucarada com um pseudo gosto de laranja, que me embrulha o estômago só de pensar. E depois de uma hora, dois tubinhos com meu sangue já estavam devidamente identificados e a caminho do laboratório. Como na amniocentese, elas me ligariam quando o resultado estivesse pronto.

Na terça seguinte, recebo uma chamada no meu celular. Era a Dra. Sung:

Selma? Saiu o resultado do exame. Você está com diabetes. Venha refazer o exame, mas desta vez em jejum.

Meu mundo desabou. Novamente, fiquei no mas, mas, mas… Como assim, estava com diabetes gestacional? Carácoles, eu tinha feito os exames de glicose em jejum e pós-prandial no Brasil, e tudo estava ótimo! Ok, eu sabia que isso poderia acontecer, porque os tais hormônios que mexem com a insulina eram liberados pela placenta a partir da semana 26. Era exatamente a semana do meu exame.

Aí, eu pensei: Pô, minha dieta tem sido super-regulada. Sem massa, sem açúcar, comendo a cada três horas, muita água. Mais caxias do que isso, não dá. O que eu terei que fazer agora, eu não sei…

E chorei. Chorei muito. Diabetes gestacional não é uma coisa qualquer, e ela fora do controle faz com que a criança nasça com muitos problemas. Além do alto risco durante o parto, devido à pre-eclâmpsia que vem no “pacote”. Era o fim do meu desejo de ter um parto normal. E chorei mais.

Uma semana depois voltei ao consultório para a curva glicêmica. Tomei em jejum 100 mg de glucose – um copo de 300 ml – e por um instante achei que ia vomitar tudo no carpete da clínica. Rezei, respirei, pensei no outro copo de 300 ml que teria que tomar caso vomitasse. E consegui segurar o trem no meu estômago. Quatro horas – e quatro picadas em lugares diferentes do braço – depois, saí do consultório. E mais alguns dias para receber o resultado.

Passado alguns dias, atendo o celular e era a enfermeira-chefe da Dra. Sung:

Está tudo bem, você não tem diabetes gestacional. Passe amanhã para pegar seu prontuário.

Por um momento não acreditei, e pedi para ela me repetir todos os números. Estava tudo normalíssimo, tão normal quanto no Brasil. Chorei de novo, mas de alegria! E aí, tentei entender que raios tinha acontecido com o meu outro exame.

Era muito óbvio o que tinha acontecido:

  • eu não poderia ter feito o primeiro exame quando fiz. Estava cansada, com jetlag, hormônios do dia e da noite todos revirados. E, ainda por cima, tinha comido o meu lanchinho da tarde antes de ir pro consultório. Lanchinho + glucose + jetlag = resultado alterado.
  • não recebi a orientação correta. Não mesmo.
  • repetir um examinho é mais dinheirinho pro bolsinho da Dra. Maluca.

Poderia ser coisa da minha cachola, de novo. Mas na mesma semana fiquei sabendo que aconteceu o mesmo com a amiga canadense aqui do condomínio. Má orientação, resultado alterado, exame repetido.

Acho que depois dessa, eu aprendi definitivamente a lição…

Published in: on novembro 24, 2008 at 9:41 pm  Comments (3)  

Conto de Fadas

Hoje acordei e a primeira coisa que eu ouvi do Rê foi

Nossa, você dormiu como uma princesa hoje…

Mas não era a Bela Adormecida, ou a Cinderela, ou a Branca de Neve. Era a Fiona, versão Ogra, competindo com o Shrek prá ver quem roncava mais alto.

Tô parecendo um serrote… Credo…

Published in: on novembro 23, 2008 at 8:27 pm  Comments (2)  

Coisas que a gente nem pensava que pudesse acontecer na gravidez – V

Contrações fora de hora…

Não são as contrações que avisam que o trabalho de parto já começou (a não ser que haja algum problema sério), mas sim contrações indolores chamadas Braxton-Hicks. Elas já apareceram há algumas semanas, mas estão ficando mais frequentes. Não tem hora ou lugar. Pode acontecer enquanto estou sentada no sofá, depois que levanto de uma cadeira, ou da cama.

A pior hora e lugar é na rua, no meio de uma caminhada. A coisa vem, tudo se contrai, e eu não sei se choro, se dou risada, se paro, se fico agachada, se chamo um táxi. De tanto me concentrar na contração, me esqueço de respirar.

E é isso que não posso fazer na hora H. Aquela estória do marido ficar ao lado da esposa durante as contrações fazendo aquele FU-FU-FU ridículo para lembrar que ela precisa respirar não é prá menos.

Tô achando que isso não vai funcionar… Vamos ficar nós dois rachando o bico se ele começar com FU-FU-FU!

Published in: on novembro 20, 2008 at 5:50 pm  Comments (1)  

Trincheira

Senta que lá vem a estória… Porque essa é um tanto longa. O bom é que toda estória tem início, meio e fim.

Última sexta-feira de junho, último dia de trabalho antes da minha licença-não-remunerada, véspera de nossa viagem a Koh Samui. 11 semanas de gestação, consulta marcada para mais um ultrassom, mais recomendações e o principal naquele momento: pegar uma cópia do meu prontuário para levar na mala, caso algo acontecesse durante a nossa estada na Tailândia.

Nossa filhota estava crescendo bastante, tudo dentro dos padrões. Eu ainda estava na minha fase vomitória, melhorando devagarzinho, mas bem melhor do que no pico tenebroso entre a 8a. e 10a. semanas. Me sentia fraca, tinha perdido bastante peso, mal conseguia manter a vitamina pré-natal no estômago para conseguir um pouco de energia. Também não conseguia chegar perto dos livros para ir a fundo e aprender os próximos passos, e hoje enxergo que isso aconteceu porque a fase de adaptação é algo muito difícil. Envolve aceitação, envolve uma maior consciência do corpo e da mente, das atitudes e das reações. E a adaptação cria um casulo meio anestesiado, que mais absorve o mundo externo do que o questiona. Assim estava eu, naquele momento da consulta das 11 semanas: dentro de um casulo, passando pelos dias, absorvendo tudo sem questionar já que não tinha energia sobrando para repelir nada nem ninguém.

Foi quando ouvimos da obstetra:

Na próxima consulta, no final de julho, faremos a amniocentese, considerando que você já tem 37 anos. Como o exame de translucência nucal foi normal, não precisamos fazer nenhum outro mapeamento genético. Pulamos diretamente para a amniocentese. 

Concordamos. Porque não haveríamos de concordar? 

E saímos felizes do consultório, com o prontuário em nossas mãos para a viagem do dia seguinte, para o início de uma nova fase na gestação de nossa filhota: fora da empresa!

Meados de julho. Em casa já há duas ou três semanas, clima de férias no ar, o verão pegando pesado lá fora. A casa em modo de arrumação: guarda-roupas, armários de tranqueiras, roupas sem uso, papéis, papéis, papéis. Os vômitos já em recesso, as náuseas indo embora e meu prato cheio novamente com arroz, feijão, carne e salada. A cabeça voltando a funcionar, lenta mas eficientemente. O casulo se rompia.

Foi quando comecei a pensar um pouco mais nas próximas coisas que aconteceriam comigo, e a mais próxima era a tal da amniocentese. Ah, bacana, mais um exame para o histórico. Mas meu espírito piolho foi além, e resolveu retomar a leitura dos livros que por algumas semanas estavam tomando poeira. Eu sabia do procedimento, sabia da agulha que enfiariam na minha barriga, e nada disso me assustava. Sabia que o exame faria um mapeamento genético apurado, para identificar possíveis alterações cromossômicas. Ainda assim, sabia muito pouco. A pulga atrás da orelha estava perturbando. E lá fui aos livros.

E, nos livros, li tudo o que já sabia, mais uma coisa: os riscos associados com o exame. Por ser invasivo, havia o risco da agulha acertar o feto, ou ocorrer a perfuração da bolsa e vazamento do líquido amniótico. Ambos riscos fatais e abortivos. 3% de risco era muita coisa, principalmente para nós, pais de primeira viagem in the mid 30s. Sabendo dos riscos, fui atrás do propósito do exame. E não achei nada que me convencesse que deveria correr o risco do aborto. Continuei procurando, não achei nada que se encaixasse nos nossos princípios, valores e cultura.

O exame nos diria se a nenê carregaria alguma trissomia – como a Síndrome de Down – ou a spina bifida. Ainda mostraria outras má-formações físicas, mas nada que o ultrassom morfológico não diria. Os ultrassons anteriores já no mostraram que não havia nada de errado com a coluna vertebral, então o xis da questão estaria na carga genética do líquido amniótico.

Se o exame constatasse que a nenê carregava alguma trissomia genética, qual seria o próximo passo? Procurei, procurei, e obviamente não achei nada. Porque a coisa terminava aí.

Ah, sim, seu bebê tem Síndrome de Down. Sinto muito. Tenha uma boa vida.

Então, para que cuernos fazer o exame? Para saber que teremos um bebê com Down, e… e o quê?

A resposta depende de quem responde. Muitos países têm esse exame como procedimento-padrão para que o casal tenha a opção de interromper a gravidez. É o caso dos EUA e também da Coréia. Outros países, como a Austrália, também seguem a mesma linha. No Brasil, aborto é crime. E particularmente para nós, Selma e Renato, aborto está fora do nosso vocabulário. Então, saber de antemão que nosso bebê não era saudável não mudaria o curso do rio.

Eu e o Rê discutimos bastante sobre o assunto. Tínhamos opiniões diferentes: eu não gostaria de saber se o nosso bebezinho tinha alguma alteração genética. Não conseguia me ver passando por mais 25 semanas de gestação pensando sobre o resto da nossa vida, ou as dúvidas sobre o que ela seria. Minha escolha era ter uma gestação tranquila, com uma relação saudável com meu bebê, e esperar para ver o que já estava reservado para nós. O Rê gostaria de saber antes, para se preparar. Não existe certo ou errado, somente existe aquilo que faz mais sentido para cada um. Mas uma coisa tínhamos em comum: correr o risco de um aborto, nessa altura do campeonato, não estava em nossos planos. Um aborto implicaria em só voltar a tentar a engravidar novamente em um ano, sei lá. Nossa decisão, então, foi não fazer o exame.

Antes da consulta em que faríamos a amniocentese, liguei para o consultório e informei nossa decisão. Não gostaria de chegar lá sem um aviso prévio, pois não tinha certeza se o exame exigia algum preparo prévio da clínica.

E, assim, no última sexta-feira de julho, fomos para a consulta. A médica quis saber os motivos pelos quais tínhamos decidido não fazer o exame, e tudo foi explicado: os riscos, a não intenção de interromper a gravidez caso algo não estivesse certo. Ela aparentemente aceitou a decisão, mas também aparentemente não entendeu. Passou a explicar que os problemas ocorridos na clínica dela estavam abaixo de 1%, como se estivéssemos com medo de fazer o exame LÁ! Repetimos novamente os motivos. Ela continuou a questionar. Dissemos não. Ela, então, sugeriu que fizéssemos o QUAD test, um mapeamento genético do meu sangue, que mostraria a probabilidade de nossa nenê carregar alguma anomalia. Sem tempo para pensar, eu já estava na sala de coleta com o braço perfurado, e meu sangue em um tubo de ensaio pronto para ir ao laboratório. O resultado sairia em uma semana, e caso houvesse algum problema, eles ligariam para nós. Na hora da conta, uma facada no peito: US$ 400 por um mapeamento genético. Holy cow!

A semana seguinte foi agitada, em busca de passagens aéreas para o Brasil a preços não tão exorbitantes em função do aumento do petróleo. Houve um feriado na sexta daquela semana, e fomos até o escritório da companhia aérea para pagar as nossas passagens. Enquanto esperávamos, o celular do Rê toca. Ele atende, responde em monossílabos, mas nada que me chamasse a atenção. Ligações vindas da empresa geralmente são monossilábicas. Ele desligou, terminamos a transação, fomos para casa. No meio do caminho, ele me diz:

Era a Dr. Sung. Ligou para dizer que o QUAD test deu positivo para Down, e que ela sugere que partamos para a amniocentese.

Minha primeira reação foi gagueira total. Mas, mas, mas, mas… O resultado não é um resultado, é só probabilidade. Como ela liga e diz isso? O que mais? Mas, mas, mas… E a gagueira continuou.

Passamos o resto do caminho prá casa em silêncio. Eu não sabia o que pensar direito, não conseguia racionalizar nada, e o banho de água fria da ligação da médica tinha detonado um turbilhão de emoções diferentes. Chegando em casa, comecei uma pesquisa insandecida pela internet. Fóruns de discussão sobre amniocentese, pesquisas acadêmicas sobre mapeamento genético, Triple test, QUAD test. Até que descobrimos um artigo de um médico falando sobre os resultados do QUAD test e a relação deles com problemas reais nos fetos. O estudo mostrava que o QUAD test trazia 85% de resultados positivos quando aplicado em mulheres na minha idade. Transcrevendo em casos reais, isso representava menos de 20%. Então, um índice gigantesco de falsos positivos.

Essa pesquisa nos deu paz de espírito. Ficamos mais tranquilos, e o próximo passo era conversar com o Dr. Rafael, no Brasil.

Aí a minha mente sórdida começou a trabalhar. Será que fomos alvos de uma cilada? Um QUAD test custou US$ 400, quanto custaria uma amniocentese? US$ 1000? US$ 2000? Obviamente a médica sabia do alto número de falsos positivos: teria ela feito a gente engolir o QUAD sem pensar, para depois jogar o resultado em três segundos via celular, sem chamar para um papo, sem explicar direito? Quanto mais eu pensava, mais eu me convencia de que ela não estava disposta a perder a boquinha.

Na segunda-feira da semana seguinte, consegui conversar com o Dr. Rafael. Contei tudo o que aconteceu, e ele ficou bem alterado. Disse que não era prá fazer exame p$&#@ nenhuma. E que ele sabia que nós não faríamos absolutamente nada com um resultado positivo, então para que correr o risco? Repetiu exatamente tudo o que já tínhamos dito para a médica, e disse prá eu ficar tranquila porque a translucência nucal foi normal. E que o ultrassom morfológico mostraria os principais marcadores das principais alterações genéticas, então uma amniocentese não traria nenhum benefício. Um reforço do que pensávamos era tudo o que precisávamos ouvir naquele momento.

Decisão reforçada: nada de amniocentese. Página virada, move on!

Consulta de agosto, antes da minha viagem ao Brasil. Ultrassom morfológico feito, tudo normalíssimo! Finalmente descobrimos que nosso bebê seria uma menininha. Marcadores da Síndrome de Down inexistentes, todos os orgãos completos e funcionais, movimentos normais, frequência cardíaca normal. A médica pegou o ultrassom, confirmou que tudo estava bem, e recomeçou a novela da amniocentese. Oh, Lord! Tivemos que repetir pela centésima vez tudo o que já tínhamos dito, mas ela não parecia convencida. Oh, Lord! Depois de um tempo, ela percebeu que não arredaríamos pé. Então disse que respeitava nossa decisão, mas dependendo do hospital que eu escolhesse para o parto eu não seria admitida pela falta do exame. Isso não aconteceria no hospital que escolhemos, porque tanto o Professor Lee (meu atual médico) quanto ela eram bastante “cabeça aberta”. Palavras dela. Me deu vontade de rir, mas eu só queria sair dali e definitivamente virar a página.

Depois descobrimos que os grandes hospitais vivem de estatísticas. Um bebê que nasce com alguma alteração genética faz mal para a imagem do hospital. Além disso, os coreanos acabam por optar por uma limpeza genética: só uma visita na ala de abortos dos grandes hospitais para entender o que é isso aqui na Coréia. Salas de espera lotadas diariamente, com meninas, moças e mulheres interrompendo suas gestações pelos mais diferentes motivos. Entre eles, alterações genéticas.

Olhando para trás, vejo que fomos inocentes. Seja porque éramos pais de primeira viagem, ou porque confiamos demais, ou sei lá o que. Deixamos de dar atenção a algum detalhe, para deixar as coisas chegarem ao ponto que chegaram? Talvez. Ou será que a medicina chegou a um ponto em que nossa ignorância sobre o assunto é o que basta para essas ciladas, e não a nossa atenção? Talvez. Mas acabou, e aprendemos muito com tudo isso. Ainda bem.

Published in: on novembro 19, 2008 at 3:14 pm  Comments (4)  

Coisas que a gente nem pensava que pudesse acontecer na gravidez – III

Arrotar.

Para mim isso sempre foi muito asqueiroso. Óbvio que eu arroto, sempre arrotei e sempre arrotarei; afinal, também sou gente! Mas na frente dos outros… Nem pensar! O máximo sempre foi aquele “burp” silencioso, meio soluço-meio arroto, inevitável depois do refri. Por mais esquisito que seja, ouvir um alto e sonoro arroto sempre me deu vontade de vomitar. Literalmente.

Aí a gente engravida e tals, e faz coisas que nem pensamos. Como arrotar sempre. E a regra para mim, até a 18a. semana era: comer sem arrotar é vomitar na certa. Comeu, arrotou, a felicidade do dia se instalou! Comeu, não arrotou… ferrou! Lá vinha o momento mágico da adoração da minha religião temporária: a louça braaaaanca…

Quando estive no Brasil meu médico me explicou que à medida que o útero vai crescendo e subindo, o estômago vai sendo empurrado para trás e o hiato fica constantemente aberto. Isso causa azia, e como a portinha está sempre aberta, é inevitável engolir muito ar. E ar que entra é ar que sai… via arroto. Puá!

Dá prá entender a gravidade da situação?

Published in: on novembro 10, 2008 at 6:27 pm  Comments (2)  

Coisas que a gente nem pensava que pudesse acontecer na gravidez – II

Olá, sou a Mrs. Magoo, muito prazer! Ah, você tá aqui do outro lado…

Não botei uma fé quando li, mas aconteceu comigo. Cegueta de marré-marré-marré. Eu, que sempre me orgulhei da minha visão de lince, tenho um par de óculos para meus 0.5 grau de miopia só prá garantir uma noite com vista cansada que precisaria dirigir; ou uma reunião naquelas salas de conferências gigantescas com um projetor meia-boca; ou prá fazer um H, mesmo. Depois de gravidez, até assistir TV em casa ficou difícil. Que situação…

Mas, como todo o resto, depois do parto passa! Ou eu terei que definitivamente trocar meus óculos…

Published in: on agosto 17, 2008 at 6:54 pm  Comments (1)  

Coisas que a gente nem pensava que pudesse acontecer na gravidez – I

Fazer xixi. Nas calças.

Tudo começou na fase Adoração à Porcelana. Corria pro vaso, e a cada espasmo de vômito, vinha um jato de xixi. A gravidade da coisa dependia do quanto a minha bexiga estava cheia. Bexiga vazia, show de bola. Bexiga mais ou menos, uns respingos. Bexiga cheia, direto pro chuveiro.

Pensei: bom, deve ser a posição que fico quando vou vomitar. Fico agachada, então a pressão na bexiga é maior. Tá. Só porque eu queria. Espirrar agora virou o maior desafio da minha vida. Espirro sem xixi é medalha de ouro! Outro dia estava preparando o jantar, e do nada veio um espirro. Em segundos, senti gotinhas descendo pelas minhas pernas. Fim de carreira.

O fim dos vômitos e enjôos estava muito bom prá ser verdade. E dá-lhe incontinência urinária!

Published in: on agosto 12, 2008 at 4:25 pm  Comments (4)