Protagonista

Uma das perguntas mais frequentes que recebo é: E aí, você vai querer parto normal ou cesariana? Às vezes é uma afirmação seguida de um PELOAMORDEDEUSCONFIRMAOQUEEUDISSE: Você VAI fazer cesariana, não vai? É ÓBVIO que essa pergunta só vem de brasileiras, porque qualquer outro povo de qualquer outro lugar do mundo foge da cesariana como o vampiro foge do alho e da cruz. Quando respondo: Parto normal, é lógico!, a maioria faz cara de terror ou já começa a desfiar o rosário porque a prima da tia da empregada da vizinha ficou HORAS sofrendo em trabalho de parto! Aí eu pergunto: Quantas horas? e a resposta vem: Nossa, DUAS HORAS! É nesse momento que eu caio no chão e começo a rolar… DE RIR!

Conheço poucas que passaram por todas as fases do parto em duas horas! Só mesmo tendo uma valvulinha hidráulica prá abrir o colo do útero e um reservatório interno de vaselina prá cuspir o rebento na hora do puuuuuuuuuuuuuxa! Quero dizer, empuuuuuuuuuuuuuurra! Ou seja lá que raios que ser faz na hora!

Sempre fui contra a cesariana indiscriminada. Essa coisa de marcar o dia prá nascer, se vai ser de manhã, se vai ser à tarde, no dia de Cosme e Damião, sempre achei um absurdo. Além de desafiar a natureza – afinal de contas, o corpo e o bebê SABEM quando chegou a hora – a cesariana indiscriminada corrobora com médicos acomodados que descobriram na Obstetrícia o sonho de não acordar de madrugada, perder os finais de semana e as suas consultas pré-agendadas. Alguém um dia disse que parto normal dói. Aí ferrou. Como se o parto fosse a única dor que existisse na face da Terra. O medo se disseminou de uma tal forma de que a dor do parto é associada com sofrimento. E dor e sofrimento são coisas tão distintas…

Que fique bem claro: a cesariana é um baita avanço na Medicina, e casos críticos e que envolvem riscos não têm outra alternativa. MAS É UMA CIRURGIA, COMO QUALQUER OUTRA. Envolve riscos e cuidados pré e pós-operatório. E a cesariana indiscriminada gera um problema social e de saúde pública. Alguém já pensou que uma cesariana indiscriminada está ocupando uma sala de cirurgia que poderia ser usada para salvar a vida de alguém que realmente precisa de uma cirurgia, seja porque está doente, foi atropelado ou levou um tiro no meio de um assalto? Que os gastos com material cirúrgico, mão-de-obra e diária de quartos são astronômicos? Que aquele quarto que uma parturiente está usando por três dias poderia ser usado por alguém que precisa de cuidados? E que a incidência de mortalidade com bebês é extremamente alta em uma cesariana, porque muitas vezes o bebê nasce antes do tempo, enquanto no parto normal a mortalidade é quase inexistente?

Fiquei feliz em ler um dia desses que a coisa no Brasil começou a mudar. São milhões de reais indo ralo abaixo com cesarianas desnecessárias e UTIs neo-natais. Milhões de reais que poderiam ser gastos na Saúde Pública, colocando mais leitos à disposição da população. A mulher que opta pelo parto normal terá direito a quarto específico, com leito, banheiro e ambiente preparado para o pré e pós-parto. Agora é lei, e parto normal não vai mais para o Centro Cirúrgico! Todas as maternidades do Brasil já estão fazendo isso, e acredito que muita coisa começa a mudar a partir de agora. A mudança vai ser a passo de tartaruga, e que os nossos obstetras brasileiros consigam ver um pouco além de seus umbigos e narizes.

E eu, tenho medo da dor do parto? Não, honestamente não. Sei que nós mulheres fomos feitas prá isso, e os benefícios para os bebês são inúmeros e conhecidos. Vai ser bom prá mim e pro Tiquinho de Gente que chegará. E acho também que o parto fecha o ciclo da gestação, e abre o ciclo da nova vida. Todos nós somos protagonistas da própria vida. Ser protagonista é ser o ator principal, ser aquele que tem as rédeas e faz acontecer. E agonista vem de angústia, do latim angustus, que significa apertado, estreito, difícil. Nascer é passar pelo angustus – literalmente o canal vaginal – e assim registrar a primeira grande protagonização da vida: ser alguém.

Voltando às dores: existem dores na vida da gente que não passam nunca. Dores que doem pro resto da vida. Quem carrega essa dor sabe do que eu estou falando. A dor do parto acaba, e é uma dor que traz vida e alegria. Essa eu posso protagonizar. As outras, não. E como doem…

Publicado em:  on Agosto 21, 2008 at 4:05 pm Comentários (2)

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2 Comentários Leave a comment.

  1. Selma,
    a maior frustração da minha vida foi não ter parto normal.
    Eu “ganhei de brinde” uma doença do pai do Matheus que me impediu de ter o parto normal, senão o Matheus teria 99% de chance de nascer CEGO.
    Fui obrigada a fazer cesareana.
    Isso por que eu tinha contração e dilatação desde o quinto mês, hein?
    Tinha tudo para ser normal, mas graças a esse “brinde” meu sonho se enterrou.
    E o pior de tudo…não posso mais ter filhos. Nem com reza brava e macumba em encruzilhada.
    Então, se você PODE ter parto normal, tenha.
    E’o espetáculo mais lindo da vida da mulher, e sinceramente,
    é o que nos dá com honra o título de MULHER< MÃE…
    É a dor mais prazerosa da nossa vida, pois depois daquele suador todo vem a coisinha mais lindinha do mundo…
    Não pude ter esse prazer, não pude me sentir mãe com M maiúsculo…O meu cometa Haley passou e eu não vi ( são 75 anos para passar outro de novo)…a minha estrela cadente
    veio e eu não pude ver…meu ônibus passou e eu não entrei…
    meu número da loteria foi sorteado e eu não fiz o bilhete…E devo tudo isso ao pai do Matheus, aquele GÊNIO, aquele abençoado que nem se preocupou e só me disse:-Desculpa, eu não sabia que aquela namoradinha que eu tive tinha esa doença. COMO se isso fosse simples como uma espinha.
    SE você tem a PERMISSÃO para ser mãe com M maiúsculo , SEJA!
    Que Deus te acompanhe, abençoes e esteja presente nessa hora Selma.
    Eu realmente te desejo o melhor.
    Beijo especial!!!

  2. Oi Selma, muito prazer, meu nome é Karina! Moro no Canadá e tenho 2 filhos, nascidos de parto normal. Claro que nasceram aqui e não no Brasil. Concordo c/ tudo o que vc disse e, por experiência de quem encarou um parto c/ anestesia e outro sem – está bem longe de ser o fim do mundo. Aliás, foram as experiências melhores e mais emocionantes da minha vida!
    Beijos e boa gravidez!


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